FONOAUDIOLOGIA GERAL E ESPECIALIZADA

(REABILITAÇÃO EM DOENÇAS NEUROLÓGICAS)

Daniela Cunha Agonilha  / CRFa 13538

        Graduação e Pós-Graduação pela USP (Hospital das Clínicas)

 

     Entre em contato: (11) 3064-4552 / 3088-4545 / contato@fononeuro.net

    DISFAGIA ( Distúrbio de Deglutição)

    Muito poderia ser dito sobre Disfagia. Há uma revista científica específica para tratar deste assunto (www.dysphagia.com). Para o leigo, podemos resumir que :

    Engasgar de vez em quando é normal !  

    Porém, fique atento à freqüência de tais engasgos. Qualquer dúvida, entre em contato com um Fonoaudiólogo. O site do CRFa de SP pode lhe ajudar a localizar os profissionais 

    A literatura diz que é aceitável apresentar engasgos em até  20% das ofertas. 

    Tosse, engasgos, pigarros ocorrendo antes, durante ou após a deglutição são sinais clínicos de disfagia.

    O engasgo em si é uma defesa do organismo, ou seja, os pulmões tentam "expulsar" o bolo alimentar do "caminho errado".

    Quando líquido ou alimento vão para os pulmões, ou seja, pegam o caminho da traquéia ao invés do esôfago, podem causar broncopneumonia aspirativa, já que os pulmões não digerem alimento. Então, o corpo estranho gera secreções e bactérias, prejudicando a saúde.

    A Deglutição é fenômeno natural que implica na transferência de um bolo, usualmente alimentar, contido na cavidade oral ( boca), para a faringe, esôfago e estômago.Faringe , esôfago e estômago são seguimentos tubulares do aparelho digestivo que servem para conduzir o alimento a ser digerido e absorvido pelo organismo.O alimento sólido, pastoso ou líquido, é introduzido na boca, em quantidades, temperatura e características que são percebidas e consideradas adequadas ou não. Quando sólido, esse bolo, é mastigado e umidificado pela saliva, adquirindo características adequadas para a sua condução até o estômago. Alimentos pastosos e líquidos são mais facilmente engolidos (deglutidos). 

    Disfagia é o nome que se dá a dificuldade de engolir. Diversas são as doenças que podem causar este problema. As doenças do sistema nervoso são as que mais freqüentemente causam esse tipo de transtorno. O Acidente vascular encefálico (AVE), muitas vezes chamados de derrame, é a causa mais freqüente da disfagia. Felizmente, nos dias atuais, muitos dos pacientes com esse problema, de causa neurológica ou outras, encontram alívio, pelo menos parcial , graças aos conhecimentos que a ciência vem adquirindo.

    Selecionei um texto do site http://www.disfagia.anato.ufrj.br/  (UFRJ - Dr. MILTON COSTA), por ser bem completo. 

    Dinâmica da deglutição:   Fases Oral  e  Faríngea

    Milton Melciades Barbosa Costa

    Costa, M.M.B. Dinâmica da deglutição : fases oral e faríngea. In: Costa, Lemme & Koch, Deglutição e disfagia abordagem multidisciplinar. SUPRASET, Rio de Janeiro - RJ, p 01- 11. 1998.

     INTRODUÇÃO

    A deglutição é didaticamente dividida  nas fases oral, faríngea e esôfago-gástrica. A fase oral é uma fase que, por permitir o controle da vontade, é dita voluntária. No entanto é uma fase usualmente subconsciente cujo controle se dá por interação do conteúdo a ser deglutido com receptores orais que percebem, qualificam e influem na determinação das ações, sem que tenhamos a necessidade de interferir conscientemente na ordenação  e potência das estruturas envolvidas. As fases  faríngea e esôfago-gástrica são definidas como involuntárias. A seqüência de ações da fase faríngea implica na determinação do sentido de fluxo e na exclusão das vias aéreas; se inicia e progride de modo reflexo e autônomo sem  que  por vontade se possa interferir, mesmo que tenhamos o desejo consciente de fazê-lo.

    FASE ORAL DA DEGLUTIÇÃO

    A fase oral da deglutição é a fase na qual   1- prepara-se, 2- qualifica-se, 3- organiza-se e 4- ejeta-se o conteúdo  a ser deglutido da cavidade bucal para a faringe. Uma  bem  definida organização ósteo-músculo-articular  dá base  dinâmica  e sustenta a constituição   da boca e da câmara  bucal onde os eventos dessa fase  têm lugar. Glândulas salivares, língua, dentes e uma complexa interação neural completam a base morfofuncional desta fase da deglutição 13

    No estágio de preparação  o alimento é triturado e umidificado para formação do bolo (mastigação).

    No estágio de qualificação, que se interpenetra com o de preparo, o bolo é percebido em seu volume, consistência, densidade, grau de umidificação , e em significativo número de outras características físicas e químicas que importam para uma adequada  ejeção.

    O estágio de organização  é aquele no qual  o bolo é posicionado, usualmente sobre o dorso da língua, e as  estruturas ósteo-músculo-articulares  responsáveis pela  morfofuncionalidade  da boca se organizam para a ejeção.

    A ejeção oral  se faz em estágio no qual, com as paredes bucais ajustadas e com o escape anterior bloqueado, a língua em projeção posterior, gera  pressão propulsiva  que conduz  o bolo e transfere pressão para a faringe. 

    A análise dos estágios da fase voluntária da deglutição aponta  para um complexo anatômico que, interagindo durante a deglutição, mostra-se com  destaque funcional em um ou outro estágio dessa fase.

    Assim, no estágio de preparo destacam-se os músculos mastigadores, quatro potentes pares de músculos localizados de cada lado da linha média, as articulações temporo-mandibulares, articulações de tipo sinovial com disco intra-articular e dinâmica interdependente e os dentes.  implantados nos arcos definidos pelos ossos maxilares e a mandíbula. Este contingente ajudado pelas demais estruturas constituintes, contidas e relacionadas com a boca mostram-se capazes de intervir sobre o alimento a ser preparado com dinâmica que explora o máximo das características morfológicas das diversas estruturas.

    A potente ação da musculatura mastigadora  se transfere  para a mandíbula, peça óssea móvel que se articula, de cada lado, por seus processos condilares com as fossas mandibulares dos ossos  temporais.  Esta interação músculo-articular permite complexo movimento que é a soma dos movimentos de elevação, abaixamento, projeção, retroprojeção  e lateralidade.  A morfologia dos dentes e seu implante  nos arcos definidos pelas maxilas e pela mandíbula  empresta ao conjunto a capacidade de fragmentar pela ação repetida sobre os alimentos.  Relacionada à trituração está a descarga  de saliva produzida pelas glândulas parótida, submandibular , sublingual, lingual  e por diversos pequenos ácinos salivares localizados sob a mucosa  que forra a cavidade bucal. 

    Ainda durante o estágio de  preparo, e dele se beneficiando, pela fragmentação e ação da saliva sobre os constituintes do bolo, pode ser percebido o estágio de qualificação do bolo a ser deglutido. A existência e independência destes dois estágios pode ser melhor percebido nos bolos nos quais a mastigação não se faz necessária. O  bolo é percebido em sua viscosidade e densidade, em sua homogeneidade, se há ou não fragmentos que devam ainda ser triturados ou expelidos antes que se degluta; se o seu volume pode ser ejetado como um todo ou deve ser subdividido para ser deglutido por mais de um esforço de deglutição; se o seu grau de umidificação está ou não adequado. O esforço de deglutição será modulado pelas qualidades percebidas no bolo a ser deglutido. Certamente o número de unidades motoras a serem despolarizadas para uma ejeção variará segundo a percepção que nessa fase se processa.

    Aqui, a  maior importância deve ser dada às terminações dos nervos glossofaríngeo (IX par craniano),  trigêmeo (V par) e ao facial (VII par).  As terminações destes nervos são as responsáveis pela percepção sensitiva e sensorial da cavidade bucal25,.30.

    No estágio de organização é que efetivamente se quantifica e posiciona o bolo, de qualquer consistência, usualmente sobre a língua. Inicia-se um ajustamento tônico de toda musculatura constituinte do estojo bucal, inclusive dos músculos mastigadores, mas mais efetivamente dos músculos bucinadores e músculos do assoalho da boca. As partes marginal e labial do orbicular da boca se modulam em contração circular  dando resistência anterior ao aumento da pressão intra bucal. A extremidade livre da língua se apõe ao trígono dos incisivos  gerando fixação funcional anterior. O contorno da parte posterior do dorso da língua se apõe ao palato mole e juntas separam a cavidade oral da faringe. Segue-se a ejeção oral.

    A ejeção oral é o resultado do aumento da pressão que se gera na cavidade bucal e que progride de  anterior para posterior. Com o bolo posicionado sobre seu dorso, a língua,   fixada anteriormente sobre o trígono dos incisivos,  se ondula de anterior para posterior e, como êmbolo, ajustada ao estojo oral, gera pressão que ejeta e é transferida para a faringe. O ajustamento tônico das paredes bucais garante resistência anterior e impede dissipação da pressão. Concomitante ao aumento da pressão oral o palato mole  tensiona-se  e eleva-se  abrindo a  comunicação  com a orofaringe, zona de menor resistência, para onde a pressão bucal se transfere  dando início à fase involuntária da deglutição.

    FASE FARÍNGEA DA DEGLUTIÇÃO

    A fase faríngea da deglutição  constitui-se no primeiro tempo da fase involuntária. Essa etapa se caracteriza por uma dinâmica  que direciona a ejeção oral,  impede a dissipação da pressão gerada por essa ejeção  e  bloqueia as vias aéreas contra a permeação  dos volumes deglutidos.

    Na primeira fase da deglutição o bolo é ejetado, sob pressão, da cavidade oral para a faringe. Essa ejeção se faz  pela projeção da base da  língua no interior da  orofaringe. A língua, como êmbolo, propele e passa ajustada  pelo contorno  dado pelo palato e pregas dos palatoglossos.  Com o retorno oral vedado pelo ajustamento de passagem,  a  orofaringe tem sua pressão aumentada.  O escape nasal é impedido pelo fechamento da comunicação entre a  orofaringe e a rinofaringe. Esse fechamento é  dado pelo ajustamento do palato  contra o istmo faríngeo, que impede o escape  e conseqüente  dissipação da pressão em sentido retrógrado para a rinofaringe.

    Durante a ejeção oral, a orofaringe, ampliada por ação dos dilatadores (musculatura longitudinal da faringe),  apresenta baixa  resistência, que facilita a entrada do bolo. Essa entrada sob pressão  na orofaringe coincide com a despolarização  dos constritores  superiores que se iniciou  a partir do istmo faríngeo. Essa despolarização atinge a orofaringe e lhe dá resistência, impedindo que a pressão  a ela transmitida se dissipe por distensão de suas paredes. Com a rinofaringe e a cavidade bucal ainda seladas e a orofaringe com alta pressão,  o bolo migra para a laringofaringe. Nesse tempo a laringofaringe  se encontra ampliada por ação dos dilatadores mas, em especial,  pela elevação e anteriorização do hióide e da laringe, que se afastam da coluna cervical, desfazendo o pinçamento do segmento distal da laringofaringe, diminuindo a resistência e facilitando  a passagem do bolo5.

    Concomitantemente com a passagem do  conteúdo da orofaringe para a laringofaringe,  a  epiglote é projetada em sentido posterior.  A despolarização  da musculatura constritora  se continua em sentido caudal, atingindo os constritores médio e inferior. A constrição sobre a epiglote evertida faz com que sua extremidade livre  separe  a orofaringe da laringofaringe, após a passagem do bolo deglutido. Nesse tempo as vias aéreas, por mecanismos diversos, aumentam  sua resistência, enquanto a transição faringo-esofágica, expandida, apresenta-se  franqueada  e permissiva ao fluxo que progride para o esôfago.  Hióide e laringe retomam a posição de repouso, a transição faringo-esofágica se fecha e o tempo esôfago-gástrico   acontece.

    A fase faríngea da deglutição é um bem coordenado processo involuntário capaz  de  conduzir o conteúdo a ser deglutido com valores de pressão, que se ajustam pela identificação das qualidades do bolo11,12,20,23.. O  valor pressórico, determinado pelo maior ou  menor esforço de deglutição, é dependente de impulsos aferentes  oriundos de receptores localizados em diferentes áreas da boca e da faringe 15,21,26,,3436,38.

    A partir da base da língua, passando pelos pilares palatoglosso e palatofaríngeo e se estendendo pelo palato mole e paredes da faringe, em especial a posterior,  são identificadas áreas   que  contêm receptores  capazes de, quando estimulados, iniciar  o processo involuntário  coordenado que caracteriza a  fase faríngea da deglutição.

    A observação de que se pode deixar escorrer líquido para a faringe, sem que a fase involuntária da deglutição seja iniciada, pelo simples contato do líquido com as paredes, e a percepção de que essa fase é disparada  pela ejeção oral, nos permite admitir que a dinâmica involuntária iniciada na faringe seja controle dependente  do estímulo  pressórico difuso,  produzido pela ejeção oral, que atinge, com aumento de pressão,  todas as áreas receptoras da faringe,  determinando a seqüência e a intensidade de participação das estruturas envolvidas.  

    Parece-nos oportuno observar que o direcionamento do bolo durante a fase faringea destaca  significativo número de regiões com função esfinctérica  que merecem consideração especial.

    FUNÇÃO ESFINCTÉRICA

    Um segmento com função esfinctérica é aquele capaz de controlar, facilitando ou impedindo, a passagem, em fluxo ou refluxo, do conteúdo de um compartimento para outro vizinho. Esse controle se faz por arranjos anatômicos que variam em organização e complexidade, mas cuja dinâmica  e repouso  alternam  abertura e fechamento  com conseqüente  variação de resistência e pressão, no interior da interface que comunica os compartimentos vizinhos.

    O esfíncter anatômico clássico é descrito como um espessamento muscular  de forma anelar   que envolve uma abertura  ou  segmento de víscera  oca.  Sua ação de controle  de fluxo  seria dependente  de um tonus muscular elevado  gerado  por contração continuada  de sua   musculatura.

    Já criticado e discutido14, o conceito  anatômico clássico de esfíncter não atende  a  função  de controle de fluxo verificada em alguns  segmentos  do sistema digestivo.  Esse conceito  ignora o controle efetuado  por outros  arranjos morfológicos,  que  desempenham  funções  relevantes. A relevância  da função desses outros arranjos se evidencia, em especial, quando de suas   falências 7,8.

    Delimitando a cavidade bucal e a orofaringe, detecta-se organização esfinctérica demarcada pelo  arco palatoglosso. Durante a ejeção do conteúdo oral,  a língua  ondula-se em progressão posterior e expande   seu contorno  dorsal enquanto se projeta, no interior da orofaringe, como êmbolo ajustado ao   contorno delimitado pela extremidade posterior da face inferior do palato mole e  pelas pregas, que a cada, lado contêm o músculo  palatoglosso.  A progressão ajustada da língua em sentido posterior  garante pressão que propele o alimento para a faringe, sem que escapes de conteúdo ou pressão se façam  de modo retrógrado,  diminuindo  e prejudicando a eficiência  da ejeção oral.  Assim, o conjunto, língua, palato e pregas do palatoglosso, constituem-se em um arranjo  com função esfinctérica.

    A relação palato-faríngea deixa ver, durante o curso da ventilação, um palato mole pendente  no interior da cavidade faríngea com o fluxo ventilatório livre entre a rinofaringe e a orofaringe. Durante a deglutição, o palato e a faringe se apõem e  se comprimem  lacrando  de modo dinâmico a comunicação entre a  orofaringe e a rinofaringe.  Esse fechamento exige a participação do palato mole e da parede que  delimita o contorno póstero-lateral do istmo faríngeo.

    Uma análise das possibilidades morfológicas da relação de firme coaptação do palato mole com o contorno faríngeo aponta para uma organização esfinctérica,  que depende  da tensão e elevação do palato mole, coadjuvada  por ação de contração do feixe de fibras  que emerge da borda superior do fascículo ântero-lateral do músculo palatofaríngeo, em associação com a ação constritiva  gerada pela despolarização dos primeiros fascículos  dos músculos constritores superiores.   

    Embora a ausência por patologia ou ressecção da extremidade livre da epiglote não seja considerada como capaz de interferir de modo decisivo na dinâmica da deglutição 22,24,28,29,35, parece-nos pertinente especular uma possível  função  de impedimento de dissipação pressórica da laringofaringe em retorno para a orofaringe, que conte com a participação da extremidade livre da epiglote.  

    Quando do ajustamento do tubérculo da epiglote contra as pregas vestibulares determinada por seu movimento de  rotação posterior,  sua extremidade livre  passa a ocupar a luz da transição entre a orofaringe e a laringofaringe. A observação videofluoroscópica4, em especial de deglutições  de pequenos volumes  contrastados ( 0,5 a 1cm de diâmetro), mostram que estes volumes  tocam e se deslocam pela presença da  extremidade livre da epiglote projetada no interior da luz da  faringe e, algumas vezes, esses pequenos volumes ficam retidos sobre essa extremidade livre. Também o meio de contraste líquido com freqüência deixa resíduos sobre a epiglote 6,8,10. Quando se dá o ajustamento do contorno faríngeo, por constrição,  sobre a extremidade livre da epiglote evertida,  a comunicação entre a orofaringe e a laringofaringe se interrompe. O bolo deglutido está na laringofaringe  que se encontra   em seu tempo de alta pressão. A presença da septação dada pela extremidade livre da epiglote poderia  garantir o impedimento da dissipação retrógrada da pressão da laringofaringee para a orofaringe. Essa função se cumpriria em associação com o dorso da língua que ainda se encontra projetado posteriormente no interior  da faringe. É possível que  essa  função esfinctérica da extremidade livre da epiglote esteja obscurecida  pela presença da língua em projeção posterior nesse tempo.

     A transição faringo-esofágica, definida como sede do esfíncter esofágico superior, é uma área anatomicamente estreitada que apresenta uma pressão basal de repouso permanentemente elevada.  A musculatura que constitui a parede dessa área é a dada pelo fascículo cricofaríngeo do constritor inferior da faringe. Esse fascículo é constituído por  músculo do tipo estriado. Sua inserção se faz a partir da rafe posterior da faringe,    ântero-lateralmente  nas bordas póstero-laterais da cartilagem cricóide,  não se constituindo em anel muscular completo 27,32.  Apesar desses fatos, usualmente, o fascículo cricofaríngeo é considerado como o elemento esfinctérico dessa  transição.1,3,16,17,19.

    O registro manométrico  da transição faringo-esofágica mostra que a pressão basal elevada  cai a zero, no tempo que antecede  a passagem da onda de deglutição; que se eleva bem acima dos níveis de repouso, no momento da passagem dessa onda,  e  que volta aos níveis basais acima do zero,  após essa passagem.

    Uma organização morfológica que explica  esses fatos  é dada pela  relação entre o contorno anterior da coluna e o contorno posterior da  cartilagem cricóide. No repouso, esses elementos  atuam como ramos de pinça que comprimem  a faringe e geram uma pressão basal elevada em nível do segmento interposto. Durante o esforço de deglutição,  a elevação  e anteriorização da laringe  em acompanhamento ao deslocamento do hióide  faz com que o pinçamento se desfaça e a pressão intraluminal caia  a nível do zero. É possível  que o reposicionamento das fibras do cricofaríngeo e  a inibição de seu tônus sejam elementos coadjuvantes da  queda da pressão basal.  Com a chegada do bolo sob pressão a essa área, agora receptiva, a passagem se faz e a pressão regional aumenta  coadjuvada  pela contração do constritor inferior, agora atingido pela onda de despolarização que começou no constritor superior quando do fechamento da comunicação entre a orofaringe e a rinofaringe. Com o bolo deglutido no esôfago, o constritor inferior  retoma seu tônus basal, a laringe retorna à posição de repouso em aposição sobre o contorno anterior da coluna e a transição faringo-esofágica, novamente pinçada, registra pressão basal  positiva, sem gastos de  energia. A turgência de um arranjo venoso capaz de atuar como coxim pressórico  em nível da transição faringo-esofágica já foi considerada 14,31

    PROTEÇÃO DAS VIAS AÉREAS

    A faringe  é região anatômica comum às funções digestiva e respiratória. A exclusão  da via respiratória,  verificada durante o esforço de deglutição,  aponta para a existência  de uma estrutura  ou organização que seja permissiva  durante a respiração  e que fisiologicamente varie, alterando sua morfologia e relações  de modo  a participar da ação protetora  das vias aéreas  durante a deglutição.  A epiglote, por sua localização, morfologia e liberdade de movimentos, foi, com certa lógica, o elemento admitido  como responsável pelo cumprimento dessa  função 2,18,33,37.

    Observou-se que a participação da epiglote  na proteção das vias aéreas não se faz por sua extremidade livre e não se limita  ao tempo de deglutição. Essa participação se deve, durante a deglutição  e a regurgitação, ao ajustamento  passivo da porção intralaríngea de sua face posterior (tubérculo da epiglote) às pregas vestibulares. Nos tempos que antecedem e sucedem a deglutição, quando existem escapes de resíduos  e pequenos volumes  da cavidade oral, a epiglote, através de sua participação na formação das valéculas  e como inserção  das pregas  ariepiglóticas, protege a via respiratória10.

    Não obstante, observou-se que a proteção das vias aéreas se faz por ação de diversos mecanismos de proteção,  que  atuam de modo interdependente  e com funções somadas 9 . Muito mais do que elementos que possam interferir mecanicamente na proteção das vias aéreas, essa função se dá por um jogo pressórico no qual a dinâmica faríngea tem grande importância.

    Além da epiglote, a apnéia de deglutição  e o fechamento da rima glótica  são capazes de aumentar a resistência laríngea. No entanto, é a elevação hióidea e principalmente a elevação e anteriorização laríngea  que dão, juntamente com a abertura da transição faringo-esofágica, a ampliação da luz   faríngea, capaz de  permitir o fluxo em sentido esofágico e dar, por  diminuição da resistência ao fluxo, a eficiência  necessária obtida com o aumento da resistência laríngea.  Esse contexto de aumento de resistência laríngea e diminuição da  resistência ao fluxo faríngeo  constitui a essência do mecanismo de proteção das vias aéreas durante a deglutição. Essa observação se reforça pela constatação videofluoroscópica de casos patológicos em que  os elementos capazes de aumentar a resistência laríngea estão presentes e funcionantes mas a aspiração ocorre por  resistência ao trânsito faringo-esofágico.

    Como proteger fisiologicamente as vias aéreas durante a deglutição.

     

    Milton Melciades Barbosa Costa
     

    Costa, M.M.B. Como proteger fisiologicamente as vias aéreas durante a deglutição. In: Castro, Savassi-Rocha, Melo e Costa. Tópicos 10 em Gastroenteroliga - Deglutição e Disfagia  . MEDSI, Rio de Janeiro-RJ, p37-48, 2000.

     INTRODUÇÃO

     O como as vias  aéreas são fisiologicamente  protegidas durante a deglutição é questão que se discute com signifativo interesse a mais de um século.

    A exclusão da via respiratória verificada  durante o esforço de deglutição,  aponta para a existência de  uma  estrutura ou organização que seja permissiva ao fluxo de ar durante a respiração e que,  fisiologicamente varie, modificando sua forma e relações, de modo a  participar da ação  protetora  das vias aéreas, bloqueando-a durante a dinâmica da  deglutição. 

    A forma  de relação das vias aéreas com a digestiva, verificada em nível da laringofaringe,  conduziu a pesquisa para a análise das possibilidades anatômicas e funcionais das estruturas constituintes desta região. 
     
    Na laringofaringe identificamos o ádito laríngeo, abertura ovalada que se projeta obliquamente  entre os planos transverso e frontal e que comunica a faringe com a laringe. Este ádito é delimitado antero-superiormente pela face  côncava da epiglote, lateralmente e a cada lado, pelas pregas ariepigloticas e, postero-inferiormente, pelos relevos  produzidos pelas bordas mediais das cartilagens aritenoides, corniculadas e cuneiformes.

    O ádito laríngeo representa a  comunicação a ser bloqueada quando da deglutição. A liberdade dinâmica da epiglote e sua relação com o ádito laríngeo tornaram-na, elemento central das discussões que visam explicar o como as vias aéreas são excluidas do transito digestivo durante a deglutição.

    Têm-se atribuido a epiglote o papel de tampa  protetora que, evertida sobre o ádito laríngeo durante a deglutição impediria, por bloqueio mecânico,  a permeação das vias aéreas. Este conceito é clássico mas não  consensual. A epiglote foi considerada por uns como estrutura básica 5,24,30,33,35    e por outros como elemento pouco importante ou mesmo desnecessário18,23,27,28,34 . Sua ausência foi considerada por uns como capaz de tornar pérvia a via respiratória33   e por  outros como podendo ser total27 , ou parcialmente removida19 sem que isso fosse capaz de causar disturbios  da proteção das vias aéreas  durante a deglutição.

    Diversas outras teorias foram elaboradas,  quase sempre pontuando  estrutura ou região  particular. A laringe e as estruturas intraluminares capazes de vedá-la ativamente foram, a seguir a epiglote, as mais discutidas.

    Foi admitida uma organização intraluminar laríngea capaz de ação de válvula 25,26 .Um mecanismo de proteção onde a luz laríngea fosse bloqueada pela projeção da face anterior do vestíbulo foi considerada. 4,6, 15,16, 32. Admitiu-se a possibilidde de que o fechamento laríngeo fosse primariamente dependente de um mecanismo esfinctérico3. As   Pregas vestibulares e as pregas vocais foram  indicadas como sendo estruturas esfinctéricas22 . Um selo  de ar no vestíbulo laríngeo dependente do fechamento da rima glótica também foi aventado2,7,29 .

    Embora  predomine o conceito de sede anatômica para justificar a proteção das vias aéreas,  a associação de ações mecânicas e funcionais tem sido consideradas17,31.

    A elevação e anteriorização laríngea, para uma posição na qual a base da língua possa participar de sua proteção foi admitida por alguns autores.1,14,19,23

    A ejeção oral e a dinâmica faríngea foram valorizadas  como  partícipes do mecanismo  de proteção das vias aéreas 21,35 .

    Observa-se que a proteção das vias aéreas  ocorre não só durante a dinâmica da deglutição, quando o conteúdo da cavidade bucal é propelido para a faringe, mas também quando um conteúdo distal, pressionado de modo retrógrado, reflui para ou através da  lariongofaringe em retorno a cavidade oral. É vista ainda quando há escape do conteúdo oral para a faringe  em ausência de esforço de deglutição. Uma sede anatômica laríngea poderia explicar estes fatos?  Estaria a proteção das vias aéreas  na dependência de uma associação de ações mecânicas e funcionais? Quais  ações? Quais funções?

    O advento de novos métodos, em especial o da videofluoroscopia permitiu perceber com mais clareza uma morfofuncionalidade que envolve um significativo número de estruturas e funções interdependentes8,9. Arranjos regionais mostraram-se importantes, mas a integração  funcional  definiu-se como fundamental.  À luz de novas observações, a proteção das vias aéreas se mostrou com  complexidade tal,  que não  poderia ser  explicada simplesmente pela ação mecânica de uma, ou mesmo mais de uma estrutura anatomicamente relacionada com as vias aéreas.

    MECANISMOS DE PROTEÇÃO DAS VIAS AÉREAS

    O estudo dos mecanismos de proteção das vias aéreas nos conduz a considerá-los sob  ótica morfofuncional que toma como base a  relação dinâmica entre o bolo em progressão e as possibilidades funcionais das estruturas  oro-faringo-laríngeas.

    Esta visão morfofuncional, que diz respeito à relação dinâmica entre o bolo e as estruturas oro-faringo-laríngeas, considera que a independência das vias aéreas é naturalmente  dependente e resultante  da integração coordenada da liberdade de movimento das estruturas envolvidas na dinâmica das fases oral e faríngea da  deglutição.

    É possível identificar dois tipos distintos de proteção para as vias aéreas. Um no qual a proteção das vias aéreas  resulta da interação pressórica  entre o bolo em progressão e a dinâmica das estruturas que se reorganizam durante a passagem do bolo; e outra  cuja proteção se dá  de modo aparentemente passivo graças às  características anatômicas regionais e a ação da gravidade10.  O primeiro ocorre durante o esforço de deglutição e na regurgitação onde um jogo de pressões e resistências surge como conseqüência de adaptações morfologicas regionais  que terminam por direcionar a progressão do bolo. Um aumento pressórico  gerado em um dado segmento  define o sentido de fluxo e direciona o bolo para as regiões que assumem menor resistência10,11. O segundo ocorre quando um conteúdo é transferido para a faringe pela ação da gravidade sem que um esforço pressórico efetivo atue e determine dinâmica protetiva.

    Na fase oral  as características (volume,densidade e viscosidade)  do bolo a ser deglutido  interferem na definição da  força da ejeção. Procedida a ejeção oral o bolo é trasferido sob pressão da cavidade oral para a orofaringe. Na orofaringe, a este tempo receptiva,  encontramos bloqueio a um possível escape nasal  devido ao fechamento da comunicação entre ela e a rinofaringe. Este bloqueio é determinado pela dinâmica de tensão e elevação do palato contra a faringe. Neste tempo a pressão na orofaringe é potencializada  pela contração dos constrictores dessa região,   e pela contínua progressão da base da língua em sentido posterior. O material deglutido é assim transferido para a laringofaringe que se encontra, neste tempo, menos resistente devido a ampliação de sua luz, que é determinada pela contração da musculatura longitudinal da faringe, e pela elevação e anteriorização do hióide e da laringe. A pressão aumentada da orofaringe é trasferida para a laringofaringe. Neste tempo a resistência orofaríngea é alta e a abertura da transição faringo-esofágica diminue a resistencia à passagem do conteúdo, agora na laringofaringe,  para o esôfago. A despolarização em  sentido cranio-caudal  dos músculos constrictores da faringe agora atinge  os  costrictores em nível da laringofaringe e conteúdo e pressão são em definitivo transferidos para o esôfago. O cojunto de estruturas envolvidas na dinâmica oro-laringo-faríngea  voltam ao repouso12.

    O porquê o conteúdo da laringofaringe segue para o esôfago e não permeia, em condições fisiológicas, o ádito laríngeo,  também exposto ao fluxo do bolo pressurizado,  explica-se pelo  aumento ativo da resistência das vias aéreas.  Assim, os mecanismos de exclusão laríngea estão sediados nos elementos capazes de gerar aumento de resistência nas vias aéreas durante a deglutição mas também no refranjo estrutural que direciona e facilita o fluxo no sentido digestivo diminuindo a resistência à  passagem do bolo pressurizado10,13.

    De modo semelhante  quando um conteúdo reflui em sentido caudo-cranial obsevamos aumento de pressão distal com ampliação da luz faríngea e oral,  diminuindo a resistência  destas regiões, ao mesmo tempo em que se verifica aumento da resistência em nível das vias aéreas.

    A proteção das vias aéreas que  se verifica quando o alimento escapa da cavidade bucal para a faringe, sem o esforço de ejeção oral,  é distinta daquela que se observa  quando há ação pressórica sobre o bolo. Evidencia-se um  outro tipo de ação fisiológica. Aqui, vê-se o conteúdo que escapa,  relacionando-se de modo seqüencial e aparentemente passivo com as estruturas anatômicas, em nítida dependência da força da gravidade e de uma morfofuncionalidade regional.  Estes fatos  manifestam-se em duas circunstâncias. A primeira, durante a mastigação, quando líquido e fragmentos alimentares, em volumes variáveis,  escapam da cavidade oral. Embora este escape apresente  maior volume e seja mais frequentemente observável em desarranjos orais, não raro, indivíduos sadios o apresentam. A Segunda  ao final da deglutição, quando  resíduos  líquidos  adsorvidos ao dorso da língua e região do istimo das fauces ( loja tonsilar), escapam sem esforço de ejeção, da orofaringe para a laringofaringe11.

    MECANISMOS DE PROTEÇÃO DAS VIAS AÉREAS QUE INDEPENDEM DE AÇÃO PRESSÓRICA.

    As valéculas e as pregas ariepiglóticas constituem a base anatômica destes mecanismos. As valéculas são depressões localizadas entre a língua e a  epiglote. Seu soalho é revestido por mucosa que se reflete da base da lingua por sobre a face ventral da extremidade livre da epiglote. Os volumes que escapam da cavidade bucal encontram nas  depressões valeculares  recipientes  cuja capacidade volumétrica varia com o grau de proximidade entre o dorso da língua e a face ventral da extremidade livre da epiglote.  

    As pregas ariepiglóticas são pregas mucosas que se extendem das bordas laterais da epiglote,  a cada lado, até o ápice das cartilagens aritenoides .  Estas pregas mucosas contêm os músculos ariepiglóticos e as cartilagens corniculadas e cuneiformes. Estas pregas apresentam capacidade contrátil devido a sua base muscular. Elas delimitam ativamente  as bordas mediais dos recessos piriformes que são canais laterais que ladeam, superiormente,  o ádito laríngeo.  

    A videofluoroscopia tem permitido demostrar que quando existem escapes orais sem esforço de deglutição, tanto valécula quanto pregas ariepiglóticas participam da proteção das vias aéreas. O volume que escapa da cavidade oral preenche a valécula para a seguir escorrer  lateralmente pelas pregas ariepiglóticas que podem apresentar dinâmica que as mobiliza em movimentos, determinados por seu tensionamento. Este tensionamento é capaz de  ampliar os canais laterais. Em condições fisiológicas esforço efetivo de deglutição será produzido quando a laringofaringe estiver preenchida por volume que alcance as proximidades do espaço interaritenóide11.

    (ENTRA FIGURA 4.1)

    MECANISMOS DE PROTEÇÃO DAS VIAS AÉREAS  DEPENDENTES  DE AÇÃO PRESSÓRICA / RESISTÊNCIA

    Estes mecanismos podem didaticamente ser subdivididos naqueles que 1- direcionam o bolo por ação pressórica e diminuição da resistência digestiva (mecanismos de ação indireta)  e nos que determinam aumento ativo da resistência das vias aéreas e que podem ser divididos em 2- mecanismos laríngeos  e em 3- apnéia preventiva.

    Como mecanismos de ação indireta, agrupamos fatos dinâmicos  de importância para a independência da via respiratória, mas cuja estruturação morfológica e ação não dependem diretamente  da anatomia das  vias aéreas. Estes mecanismos são a "ejeção oral" associada à dinâmica faríngea de impedimento de dissipação pressórica; a "elevação e anteriorização do hióide e da laringe" associada à projeção posterior da base da língua; e a "abertura da transição faringoesofágica" associada a dinâmica hióidea e laríngea e à ejeção oral.

    Como mecanismos laríngeos ou de ação local, consideramos a ação dos elementos que, constituintes da laringe, podem atuar por sua dinâmica, como elementos de proteção das vias aéreas. Estes elementos ou estruturas são  o" tubérculo da epiglote", as "pregas vestibulares" e a "rima glótica".

    O mecanismo de apnéia defensiva é mecanismo de contole central  que bloqueia o fluxo respiratório e aumenta a resistência da vias aéreas.

    MECANISMOS DE AÇÃO INDIRETA

    A ejeção oral, associada a uma dinâmica faríngea capaz de impedir dissipação pressórica, a elevação e anteriorização  do hióide e da laringe, adequadas em amplitude e tempo, associadas a abertura da transição faringoesofágica e em sincronismo com a ejeção oral,  são fases da deglutição cuja eficácia, atua na condução do bolo alimentar e na proteção das vias aéreas.

    A proteção das vias aéreas durante a deglutição se deve a um jogo pressórico onde uma baixa resistência na via digestiva permite a passagem do bolo da laringofaringe para o esôfago,  desviando-o das vias aéreas que estão pressurizadas e resistentes ao fluxo alimentar.

    A análise videofluoroscópica  da dinâmica da deglutição de indivíduos sadios, permite observar uma clara  correlação entre  a eficiência do trânsito faríngeo e a exclusão das vias aéreas, determinada pela ação, dos aqui considerados mecanismos de ação indireta. A análise de casos patológicos  onde a integridade  dos mecanismos de ação indireta foi comprometida, deixa ver  que os demais mecanismos  não são capazes de, isoladamente, manter a integridade plena da função protetiva. Com freqüência aspirações de maior ou menor monta são  observadas. Uma inadequada abertura da transição faringoesofágica, em dimensão e ou tempo, e ainda, ausência de sincronismo entre esta abertura e a ejeção oral, têm se mostrado como  causa freqüente de aspiração.

    (ENTRA FIGURA 4.2)

    MECANISMOS  LARÍNGEOS OU DE AÇÃO LOCAL

    A análise  da constituição anatômica da laringe, identifica estruturas cuja dinâmica, durante a deglutição, mostra-se capaz de estreitar sua luz e bloqueá-la,  por aumento da resistência, ao fluxo do conteúdo deglutido.

    As pregas ariepigloticas, não se aduzem, mantém-se abertas participando somente da  constituição e modulação dos canais laterais que atuam quando da passagem do bolo  como já analisado.

    Para a extremidade livre da epliglote foi descrito  seqüência de movimentos que  durante a passagem do bolo pelo ádito laríngeo a mantém afastada  descartando a possibilidade de ser ela, como se acreditava, uma tampa que veda o ádito durante a deglutição11. No entanto, em imediata relação com  a passagem do bolo pelo ádito laríngeo, tanto no fluxo quanto no refluxo, vê-se o tubérculo da epiglote ajustado às pregas vestibulares  em evidente atuação, com mecânica capaz de aumentar a resistência nas vias aéreas e participar como mecanismo local da proteção destas vias. Durante a deglutição tanto as pregas vocais quanto as vestibulares se aduzem e se apõem na linha média da luz laríngea. Este fechamento que se processa de baixo para cima, primeiro  as pregas vocais e depois as vestibulares, fazem com que a aposição do tubérculo da epiglote sobre as pregas vestibulares  possa se fazer  em um firme soalho.

    (ENTRA FIGURA 4.3)

    A rima glótica composta anteriormente pelas pregas vocais e posteriormente pelo espaço interaritenóide  se aduz e firmemente durante a deglutição sendo mesmo, a seguir a apnéia preventiva,  o primeiro dos eventos observáveis  durante a fase faríngea da deglutição.

    Não se vê fisionomicamente o bolo deglutido de qualquer consistência se relacionar diretamente com as pregas  vocais. Sua adução e fechamento firme  definem um soalho que sustenta câmara de pressão vestibular capaz de transmitir resistência pressórica ao ádito laríngeo já reduzido pela aposição do tubérculo da epiglote contra as pregas vestibulares.  Algumas vezes é possível se definir insinuações de volumes, especialmente líquidos, até em nível das pregas vestibulares, desenhando,  com as pregas ariepiglóticas,  concavidade que representa a morfologia do ádito laríngeo fechado e resistente.

    Não nos parece correto neste contexto, considerar as pregas vocais como elemento esfinctérico. No entanto devemos observar que tanto pregas vocais quanto espaço interaritenóide apresentam função protetiva adicional.  Quando resíduos alimentares,  que tenham vencido o jogo pressórico, tocam  estas estruturas  mecanismo protetivo reflexo adcional é posto em ação. Tosse e até apnéia defensiva  são  eliminados. 

    APNÉIA PREVENTIVA

    Na deglutição o primeiro fato que marca a exclusão da via respiratória e uma apnéia que se estabelece como marco do início da dinâmica da fase faríngea da  deglutição. Também, durante  o retorno em regurgitação,  no vômito, na cômica e no refluxo, verifica-se uma apnéia com características semelhantes àquela obsedava durante a deglutição. A este tipo de apnéia denominamos de preventiva.

    A apnéia preventiva pode ser definida  de modo semelhante ao defendo para  a  apnéia de deglutição;  considerada como  um  breve período no qual a respiração cessa20. A simples  observação  mostra que a pausa ventilatória da apnéia preventiva como a de deglutição,  interrompe o fluxo  de ar  da ventilação pulmonar sem causar  desconforto respiratório e se processa, na deglutição ou no  esforço de regurgitação, a partir  do início deste esforço, como evento involuntário, capaz de marcar  o início  da dinâmica protetiva das vias aéreas.

    O estudo da apnéia de deglutição estabeleceu conceitos que certamente são em grande parte  extensíveis a apnéia preventiva. Contudo aqui serão tratados como fatos pertinentes a apnéia de deglutição.

    A apnéia de deglutição determina aumento da resistência da vias aéreas. É um fenômeno reflexo cuja via de produção  é distinta da via daquela  apnéia que pode ser observada  quando do estímulo direto de receptores laríngeos.  A apnéia de deglutição  e o fechamento da rima glótica que se processam  em concomitância  são ações interdependentes, mas distintas  dentro do conjunto de  ações  capazes de proteger as vias aéreas. Embora haja a possibilidade dessa apnéia se processar  em qualquer momento do ciclo respiratório, ela se processa preferencialmente  nas fases final da expiração e inicial  da inspiração quase sempre seguidas  de expiração complementar13.

    A apnéia de deglutição é o fenômeno protetivo que primeiro se manifesta e que por último se interrompe.  

    CONCLUSÕES

     A proteção das vias aéreas verificada durante a deglutição não  é uma  simples dependência da ação mecânica  de estruturas anatômicas. Esta proteção que se verifica  durante a fase faríngea da deglutição se dá por interações funcionais que envolvem de modo coordenado, tanto o sistema digestivo quanto o respiratório. É importante que não se perca de vista que esta proteção é o resultado de um jogo de pressões e resistências que se sucedem e combinam em concomitância com a passagem do bolo a ser conduzido pelo sistema digestivo e evitado pelo respiratório. Pode ser conceituada como uma função coordenada dependente  de uma dinâmica  que envolve de modo sincronizado e seqüencial o   refranjo  de múltiplos  segmentos anatômicos que acabam por determinar  o sentido do fluxo digestivo e o bloqueio temporal da vias aéreas.

     Ao lado desta  proteção dinâmica associada a deglutição, vê-se uma  mecânica  em que não há refranjas dependentes da deglutição. Ela se verifica durante a mastigação e após a deglutição em um tempo no qual a faringe é invadida por conteúdo mas não é pressurizada.  Aqui, o conteúdo, usualmente líquido, preenche as valéculas e escorrem  lateralmente pelas pregas ariepiglóticas que podem se movimentar  modulando  a altura da borda medial de canais laterais que conduzem o conteúdo que escorre por ação da gravidade, para a laringofaringe. Este mecanismo guarda o ádito laríngeo até que um esforço de deglutição seja produzido.

     A proteção das vias aéreas durante a deglutição deve-se a um jogo pressórico onde uma baixa resistência na via digestiva determinado por mecanismos indiretos (ejeção oral, elevação e anteriorização do hióide e da laringe e abertura da transição faringo-esofágica) permitem a passagem do bolo da laringofaringe para o esôfago,  desviando-o das vias aéreas que estão pressurizadas e resistentes ao fluxo alimentar.

     A resistência da vias aéreas se deve a uma apnéia  defensiva e a mecanismos locais ou laríngeos.

     A apnéia  é o primeiro dos fenômenos protetivos a se manisfestar e o último a se interromper, usualmente complementado por esforço expiratório, parte desta proteção.

     Os mecanismos locais ou laríngeos que definem aumento da resistência,  são a aposição firme do tubérculo da epiglote contra as pregas vestibulares aduzidas  e  uma câmara de pressão vestibular  devida ao fechamento firme em adução  da rima glótica que  permite a transmição da resistência pressórica ao ádito laríngeo já reduzido pela aposição do tubérculo da epiglote contra as pregas vestibulares.

     É a soma da resistência deste conjunto de ações na luz laríngea  que garante, ao lado da apnéia preventiva, o aumento de resistência das vias aéreas.

     As pregas vocais, parte da rima glótica, não participam como um selo mecânico  capaz de impedir a permeação das vias aéreas por corpos estranhos durante a deglutição. Não se vê  em deglutições típicas o bolo deglutido de qualquer consistência se relacionar diretamente com as pregas  vocais.  Seu fechamento  define um soalho firme que sustenta câmara de pressão vestibular capaz de transmitir resistência ao ádito laríngeo. No entanto, caso a resistência laríngea seja vencida, as cordas vocais funcionarão como barreira física e dispertará reflexo protetivo adicional, que se caracteriza por  apnéia defensiva e tosse.

     Embora a proteção da vias  aéreas seja  usualmente considerada durante a deglutição  podemos observar que  estes mecanismos são em realidade dependentes de refranjas estruturais  que certamente são os mesmos solicitados por eventos nos quais as vias aéreas terminam protegidas.